quinta-feira, 5 de agosto de 2010

"Mas isso é dança?"


BEATRIZ CERBINO: FOCO NA PRODUÇÃO E NA RECEPÇÃO
 FOTO MARINA CAVALCANTE

Por Rafael Rodrigues

Com voz plácida, a professora do curso de Produção Cultural da Universidade Federal Fluminense (UFF) Beatriz Cerbino se posiciona diante de uma daquelas questões aparentemente insolúveis: o que é arte e o que não é? Sem espanto, defende não ser possível dizer isso apenas na esfera da produção. Os olhares de quem se apropria de uma manifestação qualquer são decisivos em busca da resposta. E o desafio, aí, se torna a educação do olhar.

Como docente dos módulos de dança na graduação da UFF, Beatriz se depara com certa frequência com esse tipo de questionamento. Mas não se abate diante deles. Prefere convidar os alunos - e quem mais aparecer - para discutirem e construírem saberes. Nesse processo, a dança se transmuta em muito mais do que um par de sapatilhas de ponta.

Neste bate-papo, após a palestra no Seminário Arte, Invenção e Experiências Formativas, Beatriz conta como lida com as pré-concepções que envolvem o aprendizado em dança. Confira trechos.


Pergunta - Você falou na palestra sobre uma mudança de paradigma que está sendo incorporada às práticas docentes: o corpo como suporte de grandes (e pequenas) questões). Isso já atingiu, de forma mais ampla, o circuito da dança? Os alunos, outros professores? Ou ainda existe a visão de que a dança é algo que pode ser catalogado num primeiro olhar?

Beatriz Cerbino - Na verdade, é um processo, que vem acontecendo ao longo do tempo até pelo próprio olhar que vem sendo construído. É uma construção de quem olha e de quem elabora esses textos visuais. Acho que é muito uma ideia de disponibilizar, ou de estar disponível, melhor falando. Seja para produzir essas obras em que não há uma receita - nada contra, não estou dizendo que é bom ou ruim - mas que apresentem outras formas de organização do corpo. E principalmente (a disponibilidade) de quem olha. Esse é um grande papel do educador de dança hoje: mostrar para as pessoas e para ele também que estar disponível é estar aberto a outros tipos de informação. E entender que a dança não é no singular, mas no plural. Não sei se estou respondendo quando você fala de mudança de paradigma, mas acho que é uma mudança em relação à própria arte. Essa questão de "isso não é dança?" também se aplica à arte, quando a gente fala de arte contemporânea.



Pergunta - Há ainda um certo abismo? Por que os alunos chegam com pré-concepções, do tipo "isso é ou não teatro" e assim por diante. E o que "não é" me é alheio, eu não quero.

Beatriz - É o que não está nem em uma área, nem em outra, fica transitando. É muito mais fácil dizer o que "não é".

FOTO MARINA CAVALCANTE


Pergunta - Como é que vocês lidam com esses conflitos?

Beatriz - Certamente não é fácil mostrar que as coisas não tem que ser só de um jeito. Ou não trabalhar apenas com preconceitos, com ideias preestabelecidas. É exatamente o lugar, como a Lúcia (Matos, professora da Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia) de instabilidade o tempo todo. Mas é também - e aí eu falo do lugar do docente - possibilitar a construção de outras identidades para a dança. Isso é que é o grande barato. A dança não tem só uma identidade, tem várias identidades. E quanto mais isso isso vai ficando claro, mais essa necessidade de denominar, de definir, vai se estreitando. Quando você pensa em "definir", é dar fim à alguma coisa. E quando você define dança, em tese você dá fim àquela produção. E isso para a dança é terrível. Quanto mais indefinida ela ficar, maior será sua riqueza. E não penso só em dança contemporânea, mas em todos os tipos de dança. Quando a gente olha hoje o trabalho de Lia Rodrigues, Bruno Beltrão, aqui no Brasil, é muito saudável. No momento em que a gente parar de olhar para essas questões, vamos chegar num lugar de conformidade que, para a arte, acho que é... terrível!

Dança: texto visual

FOTO MARINA CAVALCANTE


Elas quebraram o protocolo. Beatriz Cerbino, do Rio de Janeiro, e Lúcia Matos, da Bahia, abriram mão de palestras individuais e dividiram o palco do Teatro Dragão do Mar, durante o seminário "Arte, Invenção e Experiências Formativas". Uma ao lado da outra, falaram da dança como um texto visual, capaz de despertar a reflexão e o pensamento. De gerar identidadeS. Assim, sempre no plural.

"Procuro falar de dança com os meus alunos de uma maneira que seduza o 'leitor', já que a imagem é um texto visual. Ele pode se apropriar desse texto e que a reflexão seja mais do que 'o belo e o feio', mas uma reflexão crítica", diz Beatriz.

Se a dança é contemporânea. Se a dança não tem música ou movimento, alguns podem questionar? 'Isso é dança? Ficar parada é fazer dança?". Diante dessas perguntas, Beatriz devolve o questionamento: "E por que não é dança?'

Beatriz falou de imagem como um texto visual, aquele que produz a imagem em si e em quem o lê. "Vai depender de quem vai se apropriar e em que momento essa apropriação ocorre".

Lúcia Matos focou na formação em dança e destacou a prática como um elemento de reflexão. "A teoria precisa ser traduzida em uma prática que deve fazer a diferença", afirmou.

Lúcia defende que deve haver um compartilhamento entre professor-aluno no que diz respeito as diversas formas de ensino-aprendizagem. "Isso faz com que os alunos sintam que fazem parte desse processo, tornando a relação com o aluno menos hierarquizada. Não dá pra pensar o ensino de uma forma unilateral".

Programação: 05 de agosto, quinta-feira


8h30
Café da manhã 
9h
Palestra: Ensino e formação em dança algumas aproximações e perspectivas possíveis , Beatriz Cerbino (RJ). 
9h30
Palestra: Práxis em dança como ação compartilhada e política: abordando experiências e incertezas sobre a formação de artistas-docentes de Dança , LuciaMatos (BA). 
10h
Intervalo 
10h15 
Mesa: Dança, Invenção e Experiências Formativas contextos e singularidades. Participação: Beatriz Cerbino (RJ), Lucia Matos (BA), Flávio Sampaio (CE) e Rosa Primo (CE) . Mediação: Thaís Gonçalves. 
12h 
Almoço 
14h 
Palestra: "Teatro de Grupo: Locus de Utopia e Resistência", Christina Streva (RJ) 
15h 
Palestra: Ainda sobre a proposição de um instituto sem espectadores teatralidade e experiência na sociedade do espetáculo , José Fernando Azevedo (SP). 
15h40
Intervalo 
16h 
Mesa: Teatro, Invenção e Experiências Formativas contextos e singularidades. Participação: Christina Streva (RJ), José Fernando Azevedo (SP), Gil Brandão (CE), Danilo Souto (CE). Mediação: Izabel Gurgel. 
17h30
Lanche 
18h
Intervenção Grupo Bagaceira. 

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Favela. Não a que a você imaginou

TIAGO GOMES: "TERCEIRO SETOR EXISTE PORQUE GOVERNO INEXISTE"
FOTO MARINA CAVALCANTE

Por Rafael Rodrigues

Correr por fora dos estereótipos, promover diversidades e novos olhares sobre um território tão desgastado: a periferia carioca. A tarefa, quem diria, foi abraçada com satisfação por um goiano. Tiago Gomes se divide entre uma assessoria na Secretaria de Cultura carioca e o terceiro setor em busca de frestas para o que chama de nova geração de realizadores das favelas do Rio: diretores e roteiristas preocupados com temas universais. Nada parecido com os tiros e agressões de sempre do cinema mainstream nacional.

Gomes falou a este blog sobre esse novo momento do audiovisual no Rio, além de opinar - com bastante convicção - sobre uma relação delicada: governos versus organizações não-governamentais. Confira alguns trechos.


Pergunta - Como você avalia a relação do terceiro setor com o governo? São atores que tem de andar de mãos dadas?

Tiago Gomes - (brinca) Acho que agora vou ser despedido. Na verdade, acho que o terceiro setor existe porque o governo inexiste. Se o Estado cumprisse com o papel dele, não tinha razão para o terceiro setor existir. Na medida que o Estado abandona uma série de ações que eram de responsabilidade dele, as pessoas começam - pelo menos no caso da cultura - a fazer arte, muitas dessas pessoas começam a se articular enquanto organização, viram Cufa (Central Única das Favelas, ONG carioca), viram Afroreggae (ONG carioca), na "tora", na raça, na coragem. Depois que a coisa fomenta, tem visibilidade, aí eles começam a andar junto. "Olha só como a gente é bacana". Vira na verdade um serviço terceirizado do governo. É um problema, tem uma série de questões em relação a isso. No Estado que a gente tem, é fundamental o trabalho do terceiro setor.



Pergunta - No Rio de Janeiro, isso é mais crítico. Há locais onde o poder público não entra...

Tiago - O poder paralelo lá é muito presente. Quando o poder paralelo está instaurado assim, para o governo chegar é muito mais difícil. O único braço que geralmente chega na favela é a polícia, o braço repressor.



Pergunta - Que novos olhares o terceiro setor pode lançar para a cultura?

Tiago - Eu sou de Goiânia e quando disse para minha mãe que iria para o Rio de Janeiro, ela disse: "Deus me livre. O Rio é igual a Bagdá. Pra lá você não vai". Quando cheguei lá, percebi que a visão da minha mãe era totalmente equivocada. Existe a violência, mas é muito menos do que se passa na grande mídia. Lá qualquer tiroteio na Zona Sul, o Brasil inteiro fica sabendo. Mas retomando a pergunta, a primeira geração de cineastas da favela tinha a necessidade de retratar o que eles viam sobre eles mesmos. Falcão - Meninos do Tráfico, por exemplo. Chega um momento que isso ahhh (gesticula como se estivesse sendo estrangulado), já foi, chega. A gente vai fazer outras coisas. E aí começaram a fazer "A Festa da Laje", uma série de outros filmes que não retratavam mais isso. Acho que esse movimento de fazer filmes... O conhecimento da linguagem... Essas coisas todas, são as ONGs que estão fazendo esse trabalho na comunidade. O que tem que quebrar agora é o preconceito. Um exemplo. A gente tinha uma parceria com Gramado (festival de cinema), na Mostra de Favelas. Eu até achei estranho, uma mostra de favelas, mas tudo bem. Mandamos vários filmes pra lá. E só foram aprovados filmes com temas de violência, miséria e tráfico. Tinha um filme lindo, chamado "Até o Fim", que ganhou prêmios e fala de amizade, que não passou. Como não passou? É como se a favela só tivesse autoridade para falar daquilo que lhe pertence. Não pudesse falar de outras coisas. Tem um universo de coisas a serem ditas e, nesse contexto, o terceiro setor tem dado uma contribuição.

Pelo direito de existir e se fazer ouvir

FAUSTINI FALOU DA EXPERIÊNCIA DA ESCOLA LIVRE DE CINEMA
FOTO MARINA CAVALCANTE

Por Rafael Rodrigues

A empolgação e a eloquência de Marcus Faustini ao falar de seus projetos servem como cartão de visita deste carioca. Não só. São portas de entrada para plateias - como a do Seminário Arte, Invenção e Experiências Formativas - a um universo em que termos da moda como "protagonismo juvenil" são ressignificados de forma radical.

O que dizer, por exemplo, da Escola Livre de Cinema de Nova Iguaçu - projeto do qual é mentor? O concorrido centro de formação faz dos alunos (e de suas ideias) artífices do empoderamento pela arte. Coisa que o próprio Marcus viveu em anos militando no movimento estudantil, no teatro e no audiovisual.

Faustini gosta de usar o verbo "operar" para designar esse delicado processo, em que pessoas encontram a própria voz, ou as próprias imagens, em meio a representações costumeiramente redutoras: o "favelado de bom coração", o "bandido", o funkeiro. Nosso entrevistado desafia com elegância essas convenções. Desfila termos que a alguns ouvidos, talvez sugiram um jargão acadêmico desconectado da realidade. Mas dribla as armadilhas. Primeiro, pelo currículo, que inclui duradouros projetos em zonas periféricas - a Escola Livre de Cinema como o principal deles - e um trânsito no mainstream, que inclui projetos com atores de televisão conhecidos e um blog no portal O Globo. Nada que ele negue ou se arrependa. Pelo contrário: para ele, são esses fragmentos que, venham de onde vierem, constituem peculiariadades. E podem nos levar muito longe.

Confira trechos do bate-papo que tivemos com Marcus Faustini.


Pergunta - Quais são os bastidores dessa mudança de um modelo de educação em que o conhecimento é repassado pronto ao aluno, para outro em que ele é ator do próprio conhecimento?

Marcus Faustini - As pessoas da periferia tinham sede de se verem representadas. Mas entendemos que elas não são erramentas de mensagens do mundo. O cara da periferia não se limita às representações que costumamos ver, como a ideia de que, apesar de pobre, ele é um cara bacana. Isso é querer ver uma essência no cara da favela. Queríamos extrapolar essa ideia do essencialismo, que em filosofia já está superada. Foi por achar que o homem tem essência que o nazismo surgiu. Não estamos preocupados com a essência, o homem simplesmente existe! Não se pode achar que a favela é uma coisa só. Na favela onde eu cresci, o Cesarão (no Rio de Janeiro), exista a Zona Norte a Zona Sul. Não dá para achar que favela é tudo igual. A favela não pode ser mais vista como um tema. A favela precisa ser vista como um suporte. Um suporte para diversos tipos de arte. Queremos dar ferramentas para os alunos operarem o mundo, buscando referências diversas para construir suas subjetividades. A partir disso fomos desenvolvendo metodologias e estratégias para facilitar isso. Essa é uma parte dos bastidores. Nós somos muitos, muitos trabalhando essa ideia. Há 20 anos estamos buscando essas estratégias.


Pergunta - É uma espécie de empoderamento.

Marcus - É também um empoderamento, porque permite que cada um se veja capaz de contar as próprias histórias, tendo meios para fazer isso.

Pergunta - Queria falar das resistências a esse projeto. Como levar essas ideias a alguém que vive sob a influência da indústria cultural e assiste, digamos, seis horas de televisão por dia?

Marcus - Não sou contra a indústria cultural. A gente incorpora essa realidade nas práticas da Escola. Tivemos um aluno que queria fazer um filme sobre Charles Bronson (ator norte-americano). Ele fez um filme sobre Charles Bronson, com a diferença de que mostramos para ele outros exemplos de onde um personagem como ele estava presente em outros filmes, como Acossado (de Jean Luc Godard). Buscamos ampliar o repertório. Isso é algo muito importante. É preciso pensar sempre em repertório. Na Escola, os alunos tem acesso a isso para elaborar suas próprias produções. Vamos fazer um vídeo feito apenas de colagens de outros vídeos, postados no Youtube. Os alunos vão vasculhar em busca das imagens que precisam.

Pergunta - Como foi a sua transição para ocupar um cargo público?

Marcus - Fui secretário de Cultura de Nova Iguaçu, mas não deixei de ser artista. Eu ia trabalhar com sapato de palhaço, eu não tinha gabinete. Na minha gestão, implementei Conselho de Cultura, chamamos os jovens para discutir. Hoje Nova Iguaçu é a única cidade do Rio de Janeiro que tem um Fundo Cultural. Tenho orgulho desse trabalho. Hoje estou na Secretaria de Direitos Humanos e vamos implementar, futuramente, nosso projeto nas UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) do Rio de Janeiro. Queremos mudar o nome das UPPs para Unidades de Políticas Públicas.

Novos olhares

 FOTO MARINA CAVALCANTE

Na palestra "A importância do terceiro setor na formação de novos olhares", Tiago Gomes também comentou suas experiências como coordenador de audiovisual da Cufa do Rio de Janeiro.

Repertório simbólico e boas ideias


FOTO MARINA CAVALCANTE




"Palavra, corpo e território". Tudo isso ao mesmo tempo. Marcus Faustini colocou a alma no seminário "Arte, Invenção e Experiências Formativas. Para contar a história da Escola Livre de Cinema de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, Marcus voltou no tempo, na origem pobre da família de Areia, na Paraíba. Família que foi crescendo e migrando principalmente para Brasília e Rio de Janeiro. E foi no Rio de Janeiro que muita coisa aconteceu. 
Cresceu circulando pela casa dos tios e tias em Brasília e no Rio. Ele conta que a necessidade da familia deu encorajamento para que ele circulasse pelas metrópoles. "Existe um medo simbólico, se vai ser aceito ou não".
A década de 80 foi quando cresceu. "Cresci na 'intrusão' social e não na inclusão social. Fui tentando tudo". Foi punk, funkeiro, viveu o teatro amador de periferia. Da Baixada Fluminense para Santa Cruz, viveu em um conjunto habitacional. O mesmo que recebia os moradores de favelas destruídas. "Como já estava encorajado a circular pela cidade, circulei muito e isso me trouxe uma oportunidade de repertório simbólico que até então não estava posto a mim. Trabalhando como office boy, em cemitério, vindo de familia que não tinha qualquer experiência com arte. Minha família não compreendia muito, queria carteira assinada".

Brincou sério de Teatro, militou.  "Em casa ouvia que arte era de vagabundo e nos partidos a arte era coisa de pequeno burguês. Apostei na vivência em torno da arte. Comecei a perceber que um discurso podia mudar o mundo".

E com a ideia de que "mais importante do que construir representações é atuar no território", ajudou a criar uma escola de arte contemporânea que trabalhava com ideias estéticas. "Teatro não só como construção, coletamos história dos moradores para mostrar a essência das pessoas. A gente queria que a molecada operasse seu território". E na tentativa de combinar coisas que não se combinam, surgiu a Escola Livre de Cinema de Nova Iguaçu. Daqui a pouco, você confere entrevista com Marcus Faustini.