terça-feira, 31 de agosto de 2010

"Eu tenho autorização da polícia para ficar pelado aqui"

Esse é o título de uma instalação do artista, pesquisador e produtor Ricardo Marinelli, apresentada pela primeira vez em 2004, em Curitiba. Marinelli vai ministrar a residência Dançando com nossas urgências (ou sobre uma poética autocoreográfica), entre os dias 13 a 17 de setembro, no Alpendre (Rua José Avelino, 495). Essa atividade é parte da programação gratuita de oficinas do Núcleo de Formação do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.

Veja abaixo um trecho da instalação "Eu tenho autorização da polícia para ficar pelado aqui", postada no Youtube. Marinelli vai apresentá-la no Encontro Terceira Margem, da Bienal Internacional de Dança do Ceará.


Lembrando: as inscrições para as oficinas de setembro estão abertas. Para se inscrever, envie ficha de inscrição (download aqui)para nucleodeformacao@dragaodomar.org.br com nome completo, endereço, telefone e o nome da oficina que deseja se inscrever. Para a residência de Ricardo Marinelli, é necessária apresentação de currículo.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O movimento de Fauller

O trabalho do coreógrafo Fauller tem na Cia. Dita, criada em 2003, uma de suas principais vitrines. Ele será o responsável por ministrar a oficina Residência Corpo: Abrigo da Cidade, entre os dias 27 de setembro e 1º de novembro. Abaixo, confira um pouco do trabalho do coreógrafo, no espetáculo INC.





Fauller começou a trabalhar profissionalmente com dança em 1999, como bailarino do Colégio de Dança do Ceará. Em 2003 criou a Cia. Dita, com a mesma tem incursionado pelo Brasil, Europa, África e América do Sul, criando obras que dialogam com o vídeo, a dança, a fotografia, a performance e a literatura. Ao longo dos anos dançou e  colaborou com os criadores Rachid Ouramdane, Alain Buffard, Gary Stevens, Julie Nioche, Gilles Jobin, Paulo Caldas, Yann Marussich, e Rosemberg Cariry. Pensa e organiza seu trabalho artístico como ferramenta política e estética.   

Lembrete: para se inscrever nas oficinas do Núcleo de Formação, envie email com ficha de inscrição (download aqui) para nucleodeformacao@dragaodomar.org.br com nome completo, endereço, telefone e o nome da oficina que deseja se inscrever. A oficina Residência Corpo exige apresentação de currículo.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Setembro traz oficinas gratuitas em dança e cinema

Entre o movimento e a imagem. O Núcleo de Formação do Programa Dragão do Mar Educativo divulga o calendário de oficinas para o mês de setembro. Nessa rodada, composta de seis oficinas, o Núcleo privilegia audiovisual e dança.

A professora do curso de Educação Física e Artes Cênicas da Faculdade Social da Bahia, Márcia Santiago, ministra a oficina Cinesiologia Aplicada à Dança - O Corpo respirando movimento inteligente. Os encontros acontecerão de 15 às 17 horas, entre os dias 13 e 17 de setembro, no Sesc/Senac Iracema. A atividade é voltada a voltados a bailarinos, professores de dança e profissionais da área da saúde, com alguma experiência na área de dança.

Márcia Santiago tem Especialização (1990) e Licenciatura em Dança (1989) na Universidade Federal da Bahia. É certificada em Pilates pela Polestar Education/Physio Pilates em Pós-reabilitação e Fitness (2000) e em Gyrokinesis em (2007). Concursada pela Secretaria de Educação do Estado da Bahia (1990), atuando na Escola de Dança da FUNCEB como coordenadora pedagógica no Curso de Educação Profissional em Dança e assistente de coreografia (1993/2003) e docente das disciplinas Cinesiologia Aplicada à dança, Pilates solo, dentre outros (1990/2010).

A oficina, com abordagem prática e teórica, será uma breve introdução dos fundamentos cinesiológicos da anatomia do movimento parcial e total e da postura corporal estática e dinâmica da dança, aplicando técnicas corporais e respiratórias específicas utilizando acessórios como elásticos, flex ring, pesos e bolinhas.

Também entre 13 e 17 de setembro, acontecerá no Alpendre a Residência Dançando com nossas urgências (ou sobre uma poética autocoreográfica), ministrada por Ricardo Marinelli (SC). O objetivo da oficina-laboratório é explorar estratégias para ampliar e desenvolver o potencial criativo e perceptivo do artista interessado em dança, corpo e movimento. Martinelli propõe investigar metodologias para diferentes processos de criação de coreografias.

A seleção para essa oficina será realizada mediante apresentação de currículo. Os encontros dessa oficina acontecerão de 14 às 17 horas, tendo como público-alvo performers, bailarinos, coreógrafos e intérpretes-criadores em dança. O ministrante, Ricardo Marinelli, é artista, pesquisador e produtor em arte contemporânea.

A oficina Dançando com maiores de 50 será ministrada entre os dias 20 e 24 de setembro pela professora de Dança Contemporânea Eliana Madeira. A atividade tem como objetivo despertar o desejo de se movimentar além dos condicionamentos do cotidiano e das limitações da idade, gerando autonomia e bem-estar.

Os encontros acontecerão entre 15 e 17 horas, no Sesc/Senac Iracema, e são direcionados a mulheres e homens com mais de 50 anos. Eliana Madeira é graduada em Educação Física na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e pós-graduada em Dança Elementar em Colônia, na Alemanha.

Entre 21 e 24 de setembro, Marcelo Ikeda ministra a oficina Introdução à Crítica Cinematográfica. De cunho teórico, a atividade contempla o papel e os lugares da crítica cinematográfica na atualidade. Os alunos poderão exercitar a veia crítica, ao fim da oficina, redigindo material sobre uma produção local. As aulas acontecerão no Alpendre, entre 15 e 18 horas.

O público-alvo desta atividade são pessoas interessadas em cinema, com alguma experiência no ofício da crítica. Para essa oficina, é necessária a apresentação de currículo. O ministrante, Marcelo Ikeda, é professor do Curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Ceará (UFC), e mestrando em Comunicação Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

O coreógrafo Fauller ministra, entre os dias 27 de setembro e 1º de outubro, a oficina Residência Corpo: Abrigo da Cidade. Mediante apresentação de currículo, podem se inscrever performers, bailarinos, coreógrafos e intérpretes-criadores em dança. As aulas serão no Sesc/Senac Iracema, das 14 às 17 horas.

A oficina articula estruturas coreográficas e o uso de equipamentos digitais (como câmeras e celulares) para pensar a relação entre dança e imagem. Fauller é diretor da Companhia Dita de dança, e atua desde 1999.

As possibilidades de realização audiovisual a partir da literatura estão no foco do realizador Fred Benevides, que ministra a oficina Transcriações: leitura e escuta, entre 27 de setembro e 1º de outubro. A atividade, de caráter teórico-prático, acontecerá no Sesc/Senac Iracema, de 14 às 17 horas. O público-alvo consiste em interessados em geral, com alguma experiência na área.

Fred Benevides é graduado em Comunicação Social pela UFC e formado pela Escola de Audiovisual de Fortaleza. Ministra cursos de formação em audiovisual.

Veja outras informações no site do Centro Dragão do Mar.

Serviço

Inscrições


Para se inscrever, envie email com ficha de inscrição anexa (download aqui) para nucleodeformacao@dragaodomar.org.br, com nome completo, endereço, telefone e o nome da oficina que deseja se inscrever. Atente para a obrigatoriedade de currículo para algumas das oficinas.


Oficinas de setembro – Núcleo de Formação

Cinesiologia aplicada à Dança - O Corpo respirando movimento inteligente, com Márcia Santiago (BA)
25 vagas
Sesc/Senac Iracema
13 a 17/9 – 15 às 17 horas

Residência Dançando com nossas urgências (ou sobre uma poética autocoreográfica), com Ricardo Marinelli (SC)
20 vagas
Alpendre
13 a 17/9 - 14 às 17 horas

Dançando com maiores de 50, com Eliana Madeira (RJ)
20 vagas
Sesc/Senac Iracema
20 a 24/9 – 15 às 17 horas

Introdução à Crítica Cinematográfica, com Marcelo Ikeda
20 vagas
Alpendre
21 a 24/9 – 15 às 18 horas

Residência Corpo: Abrigo da Cidade, com Fauller

20 vagas
Sesc/Senac Iracema
27/9 a 1/10 – 14 às 17 horas

Transcriações: leitura e escuta – Módulo I /Roteiro, com Fred Benevides
20 vagas
Sesc/Senac Iracema
27/9 a 1/10 – 14 às 17 horas

Endereços

Alpendre
Rua José Avelino, 495 - Praia de Iracema

Sesc/Senac Iracema

Rua Boris, 90C - Praia de Iracema

domingo, 8 de agosto de 2010

Energias e sensibilidades à venda


SUELY ROLNIK BUSCOU DESCONSTRUIR O PAPEL DA ARTE
FOTO MARINA CAVALCANTE

O relógio já se encaminhava para as 14 horas quando Enrico Rocha, um dos coordenadores do Seminário Arte, Invenção e Experiências Formativas se viu obrigado a encerrar a participação de Suely Rolnik e, por tabela, declarar finda a jornada de cinco dias pelas veredas da interseção entre arte e conhecimento. Não por ausência de méritos da palestrante - ela estava ali há cerca de duas horas e meia. Mas pura e simplesmente por demandas tão incontornáveis como almoçar, por exemplo.

Enquanto o protocolo - e a fome - não reclamaram seu espaço, a psicanalista, crítica de arte e curadora lançou-se ao nada modesto desafio de descortinar como o sistema capitalista, em sua fase cultural, articula as experiências humana e as manipula de forma a movimentar a máquina do mercado. E o corpo - isso mesmo, o meu, o seu corpo físico - é o epicentro do processo, na medida em que nele se imprimem as subjetividades ali cultivadas.

Rolnik desliza hábil por tal tarefa. Dribla o hermetismo costurando exemplos prosaicos, observações acessíveis e até um certo humor, sempre alinhavado pelos apelos à participação da plateia. Assim, a discussão de dimensões monumentais ganha leveza, ainda que não perca a gravidade.

A fala da pesquisadora, "Desejar a sensação", articula psicanálise, teoria social e filosofia (entre outras matrizes) para  repercutir observações acumuladas ao longo dos últimos dois anos.  Uma das chaves de leitura está na seguinte assertiva:  capitalismo pós-industrial se alimenta da energia da tensão que mobiliza nossa energia vital (ou força de potência, como diria Nietzsche).

"Alimento o sistema com tudo aquilo que tenho de mais valioso, a minha pérola negra: minha subjetividade", colocou Suely.

Toda essa ação se dá na esfera da micropolítica, definida pela pesquisadora como lugar das subjetividades vistas com lente de aumento. É o terreno em que percepção (a apreensão do visível) batalha com a sensação (o lugar do invisível, em que se dá o duplo movimento entre a desagregação e a criação de forças). É aqui que as vitalidades se inscrevem no corpo e na sensibilidade.

E, mais importante, é onde o sistema capitalista opera, puxando-nos o tempo inteiro para o consumo de subjetividades "pret-à-porter". Isso ocorre na ânsia de nos repaginarmos, nos reinventarmos para lidar com nossa condições de seres angustiados - por não podermos alcançar os modelos projetados a partir dos braços desse mesmo sistema - tal como a mídia faz, por exemplo.

Nesse sentido, a força de pensamento torna-se mais relevante que a força de trabalho, revertendo a lógica característica do capitalismo industrial.

Rolnik enxerga ser possível pensar em duas diferentes políticas de criação dentro desse contexto. Uma, ativa, capaz de incorporar a escuta das sensações, e a outra, reativa, empenhada em denegar essa mesma escuta. As subjetividades "ready-made" fornecidas pelo capitalismo inclinam-se para o pólo reativo, potencialmente menos transgressor. De outro lado, a arte pode propor o caminho da intervenção ativa.

"Não nos interessa aqui a distinção entre o que é popular e o que é luxo", observa. "Não há isso no terreno da micropolítica." Para a pesquisadora, a modernidade se funda no recalque do nosso acesso à sensação. Um movimento de desrecalque tem recorrido, porém a serviço do capitalismo.

O público não se intimidou diante da nem sempre fácil trilha teórica de Suely Rolnik, e colocou-se em perguntas, em afirmativas, por vezes sem esperar pelo microfone do evento. O diálogo e a construção coletiva forneceram o desfecho mais que justo para um evento talhado para proporcionar a troca. Às duas da tarde desse sábado, ao fim da participação de Suely Rolnik, eis que a missão se cumpria.

A Maré está para cultura


ELIANA: É PRECISO INTEGRAR ESPAÇOS À VIDA DA CIDADE
FOTO MARINA CAVALCANTE


Por Rafael Rodrigues

Dezesseis comunidades, 140 mil habitantes e alguns dos índices de criminalidade mais preocupantes do Rio de Janeiro. Esse breve raio-x do Complexo da Maré, na capital carioca, dá a medida do árduo trabalho a que se lançam ONGs e movimentos sociais dedicados ao fomento da arte e da cultura.

A questão que parece se impor, na verdade, é anterior. Há espaço para arte e cultura num ambiente socialmente vulnerável como esse? A diretora da ONG Redes de Desenvolvimento da Maré - Redes Maré e Diretora da Divisão de Integração Universidade Comunidade da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Eliana Sousa, atesta que são múltiplos e marcantes os projetos nessa área. O desafio, neste momento, é torná-los algo menos pontual e estabelecer relações orgânicas com as comunidades em que se situam.

Leia trechos de um bate-papo que tivemos com Eliana nesse sábado (7), antes de sua participação no Seminário Arte, Invenção e Experiências Formativas.

Pergunta - Alguns convidados que estiveram no Seminário, vindos do Rio, relataram experiências junto a comunidades e favelas. Se falou aqui de um novo momento que poderia se configurar a partir da presença das UPPs, as Unidades de Polícia Pacificadora. Elas poderiam se tornar unidades de políticas públicas. Você acha possível dar essa nova dimensão a uma ação governamental que é, historicamente, repressora?

Eliana Sousa - Acho que nas favelas em que as Unidades Pacificadoras estão presentes, o fato de você não ter determinadas forças locais atuando vai favorecer que muitos projetos - de arte, educação, lazer, esporte - venham a acontecer de uma forma mais republicana, de uma maneira mais aberta e talvez com maior participação da comunidade. Então é um momento em que vários projetos podem começar a se aproximar mais da população. Tem alguns projetos de arte que não chegam a essa população. Agora, acho que no Rio de Janeiro já existem muitos projetos de arte e cultura, que acontecem dentro das favelas, e que, de alguma maneira, essa situação vai ampliar algo que já existe e é inclusive um pouco a marca dessas áreas - trabalhar com arte e cultura.

Pergunta - Na tua experiência com as favelas da Maré, o que você pode relatar de mais relevante nesse sentido, de uma ação que já tem resultados?

Eliana - Na Maré temos várias experiências. E até antes do trabalho que a gente faz, como cresci lá, vivenciei alguns projetos como moradora na área de arte. Projetos muito pontuais, mas que existiam. A Maré teve algumas experiências, principalmente na área de dança que foram relevantes e deram frutos. A Lona Cultural hoje tá assumindo uma nova gestão, a cargo da organização que faço parte (Observatório de Favelas). E ela tá numa perspectiva diferente com o espaço público. A questão é que (lá) você não tem espaços públicos. Você está aqui no Ceará, num centro de arte público que está integrado à cidade. A rua é aqui do lado. Achei isso muito maravilhoso. O que acho que esse trabalho vem gerando é a possibilidade de você construir a cultura como um direito. O maior fruto que a gente tem, resultado desses últimos 13 anos de trabalho na Maré, é a possibilidade das pessoas vivenciarem a arte de outra maneira. Não apenas pontualmente, dentro de um projeto. Mas com a possibilidade de gerar uma criação que vai estar integrada àquela comunidade, àquela população.


sábado, 7 de agosto de 2010

Do outro lado do "balcão"


JAILSON SOUSA VÊ A UNIVERSIDADE COMO FOCO DE MUDANÇA
FOTO MARINA CAVALCANTE

Por Rafael Rodrigues

O geógrafo carioca e doutor em Educação Jailson de Sousa se constituiu, ao longo dos anos, num conhecedor privilegiado das contradições e demandas da periferia carioca. Foi ele um dos fundadores do Observatório de Favelas, ONG referencial no Rio de Janeiro. Um desafio maior o aguardava no outro lado do "balcão", o poder público. Hoje, como secretário executivo da pasta da Ação Social e Direitos Humanos, mostra entusiasmo para a efetivação de políticas, tanto simbólicas quanto materiais, capazes de reposicionar a estigmatizada figura do favelado ou subalterno.

Antes de subir ao palco do Centro Dragão do Mar neste sábado (7), para falar de sua experiência, ele conversou com o blog sobre as possiblidades e os limites das ações afirmativas. Confira trechos.

Pergunta - Alguns palestrantes que discutiram o contexto local do Rio colocaram a prevalência das políticas públicas repressoras e desse estigma da favela como um espaço que ainda precisa ser civilizado. Como vocês, educadores e atores sociais, lidam com essas linhas de força?

Jailson -
Procuramos trabalhar em dois níveis básicos: com o plano simbólico e o plano material. No plano, simbólico, procuramos reconceituar o conceito de favela. I Para o IBGE, a favela é um "aglomerado subnormal    ". É a visão oficial. Esse tipo de visão acaba resultando na naturalização da morte, que é a expressão maior desse ser, desse garoto negro, pobre, que tá fora da escola e do mercado de trabalho. A gente produz livros, vídeos, fotografias, textos variados. Ao rediscutir essa ideia, buscamos a inserção desse espaço na cidade de forma diferenciada. E o trabalho material. A gente cria processos, tecnologias sociais que possam ser usadas pelo poder público, transformadas em ações que possam romper com esses estigmas. O principal projeto é o Conexão de Saberes, criado pelo MEC mas por nós implantado no país inteiro.

Pergunta - No que consiste esse projeto?

Jailson -
O programa trabalha primeiro com a ação afirmativa. É fazer com que os garotos de origem popular que entram na universidade tenham direito a bolsa. Origem popular é negro, preto ou mestiço, índio, morador da periferia. É um conjunto de critérios que são avaliados pelos coordenadores para concederem as bolsas. Daí ele passa a atuar em três aspectos: as ações afirmativas, permanecer vinculado a seu lugar de origem - muitas vezes esse vínculo é quebrado, e desenvolver atividades nesse campo. O programa trabalha com território, trabalha com a questão do sujeito como um sujeito de direitos e trabalha numa perspectiva de levar em conta o simbólico.

Pergunta - A discussão sobre ações afirmativas na universidade se esgotou na questão das cotas?

Jailson -
Mais ou menos. Há outras coisas na universidade. Recuperação dos restaurantes universitários, construção de alojamentos e oferta de conteúdo específico para alunos da escola pública, principalmente dentro da escrita, do acesso ao computador e o desenvolvimento da capacidade de produzir conceitos.

Territórios de incerteza


ANA MARIA QUER LEVAR A DÚVIDA AO ESPECTADOR
FOTO MARINA CAVALCANTE

Por Rafael Rodrigues

Que espécie de artista propõe ao espectador de uma exposição sentar num banquinho e vislumbrar a paisagem enquadrada nas janelas, como se estivesse num saguão de aeroporto, por exemplo? A paulista Ana Maria Tavares é dessa linhagem de provocadores. Provocadores por imaginarem o espaço expositivo como ponto de partida de "desajustes": um lugar que parece outro, esculturas que nada mais são que peças de design, sons que evocam outras temporalidades.

Esses fluxos, diz a artista, permitem ao sujeito indagar a si próprio que papeis desempenha no mundo. E conferem ao artista visual o status de um investigador de experiências. Não é pouca a ambição dessas propostas, mas Ana Maria Tavares as abraça de forma resoluta. No Seminário Arte, Invenção e Experiências Formativas, ela mostrou alguns dos resultados de sua trajetória. Em seguida, nos concedeu entrevista. Confira alguns momentos.

Pergunta - Na sua apresentação, você demonstrou atenção para os detalhes, coisas que estão para além do que a gente vê. Para as linguagens que possam dar suporte ao trabalho visual. A música, por exemplo. Essa tua preocupação amplia os seus horizontes como artista? Isso se tornou uma preocupação essencial para você?

Ana Maria Tavares -
Se tornou sim, claro, mas não por essas motivações que você fala. Na verdade, se trata de criar uma obra que possibilite uma experiência mais complexa e completa. A obra nunca é puramente visual. Eu quero me distanciar do puramente visual. A experiência da arte é como a experiência do mundo: ela é complexa, com todos os sentidos. Se privilegiar a visão em detrimento dos outros sentidos é limitante. O uso do áudio, da experiência sonora no trabalho, é exatamente para possibilitar os deslocamentos que a obra propõe tornar parte da experiência do sujeito. A experiência de suspensão de que estou falando ela se dá muito a partir da experiência do áudio. Quer dizer: onde você está? Se já visualmente você não reconhece as obras como obras - elas parecem com objetos de design - se o museu não é mais reconhecido como museu, porque ele é um porto, a música também, o som não corresponde àquilo que estou vendo. O som diz: "estou dentro de um aeroporto, estou dentro de um avião", e o que você vê não corresponde ao que se ouve. Então, essas trocas, esses desajustes, o que eu chamo de experiência de rotação, é que vão propiciar uma indagação do sujeito para ele mesmo. "Onde eu tô, o que eu tô fazendo aqui e o que faço agora?" Acho que a obra, em si, pretende fazer perguntas para que você mesmo seja capaz de fazer perguntas.

Pergunta - Vejo que você problematiza muito o espaço expositivo. E com essa sua fala, isso parece ser parte dessa preocupação maior de "balançar" o espectador.

Ana -
Desestabilizar.

Pergunta - Como você começou a dessacralizar o espaço do museu como um lugar para pendurar quadro?

Ana -
Eu acho que é parte do meu questionamento esse questionamento das verdades, das convenções. Se eu tomo a obra como design, por exemplo, se propositadamente assumo o design, essa referência, é na obra que eu vou conseguir um espaço de dúvida. A arte não tá querendo criar o território da certeza, mas o território da dúvida, da incerteza. O próprio museu se coloca em xeque. Parte da tarefa do artista é questionar a instituição, a sua prática, o sistema. Acho que nos exemplos que dei, de mais de 10 anos atrás, é o início desse pensamento. É quando faço essa superposição entre as questões da contemporaneidade e os conteúdos e a história do lugar.

Um eterno happening no palacete


CLÁUDIA FEZ PERCURSO SENTIMENTAL EM PALESTRA
FOTO MARINA CAVALCANTE

Por Rafael Rodrigues

Uma cantora lírica italiana, um rico armador carioca, uma vida a dois num dramático palacete em meio à floresta. Poderia ser a história de um folhetim romântico daqueles bem moralistas. Mas, acaso ou não, esses elementos foram o idílico início de uma proposta ousada: uma escola de artes visuais em pleno período da ditadura militar.

A Escola de Artes Visuais do Parque Lage, fundada em 1975 e logo alçada à condição de espaço livre para a experimentação dos artistas cariocas, herdou o belo palacete construído por Henrique Lage para a amada italiana, Gabriela Besanzoni. Foram-se os personagens, ficou a obra, hoje uma referência no ensino das artes da região.

A diretora da Escola, Cláudia Saldanha, prestou uma sentimental homenagem à Escola, evocando nomes e imagens da trajetória do centro de formação. Após sua palestra no Seminário Arte, Invenção e Experiências Formativas, nessa sexta-feira (6), ela conversou com este blog. Confira trechos.

Pergunta - Trinta e cinco anos depois da abertura da EScola de Artes Visuais do Parque Lage, como se pode mensurar a importância desse equipamento para uma cidade como o Rio de Janeiro?

Cláudia Saldanha -
A escola tem um papel fundamental para a cidade, especialmente no seu início. Quando em 1975 Rubens Gerschman é convidado a assumir para assumir a direção e cria a Escola, ele convida uma série de pessoas, pensadores e intelectuais da época, para junto com ele darem início a esse novo programa. Para você ter uma ideia, ele contou com a colaboração do Mário Pedrosa, da Lygia Pape, a Lina Bo Bardi, a Celina Tostes (artistas visuais)... No início, ela significa mais ou menos o lugar da liberdade, mas aquela liberdade no sentido de que as pessoas poderiam ali conversar a falar livremente, sem ter medo. Uma espécie de oásis, daí o termo usado pelo (crítico de arte) Wilson Coutinho: o jardim da oposição, que é perfeito. É uma espécie de Éden da intelectualidade do Brasil como um todo, porque era frequentado por pessoas de outras cidades, como Glauber Rocha. Isso foi o início da escola. Hoje, claro que ela vai... Os anos vão se passando, a sociedade vai se modificando, mas ela permanece como um ponto de referência de artistas. De todo o país. E até hoje ela guarda essa característica de lugar de troca de ideias, de conversas. E justamente por não ser uma universidade, em que você não tem que fazer vestibular para entrar, não tem que cumprir créditos, por ser uma escola mais libertária em sua concepção original, ela proporciona várias formas de interação. Tem gente que vai lá para ler poesia. Há eventos em que a Escola fica lotada, e acaba virando festa. É uma espécie de vocação. A Escola, mesmo antes do (Rubens) Gerschmann, foi construída como um lugar de festa.

Pergunta - Isso faz lembrar o happening, que é justamente uma dimensão das artes visuais ali dos anos 60, com Warhol, e vocês parecem que se inspiram nisso...

Cláudia -
É. Tinham lá umas aulas muito interessantes, no início, do Hélio Eichbauer, que é bailarino de formação mas fala de filosofia, de psicanálise... Revirando a memória da escola, encontramos coisas incríveis. Filmes da época, feitos durante as aulas. São filmes assim... você não acredita! Exatamente isso que você está falando, esse espírito de juntar todas as coisas. Tinham músicas, a Bachiana do Villa Lobos, ao mesmo tempo fazendo uma encenação que era uma catarse coletiva. Tinha argila, materiais... Tudo junto ao mesmo tempo. Claro que isso tinha a ver com a época, um momento de grande repressão por um lado, e uma grande necessidade de libertação. Mas tinha a ver com um movimento internacional. Os anos 60 foram os anos 60 no mundo todo, anos muito libertários. Quando a escola começa, nos anos 70, ela reflete esse espírito.

Pergunta - As artes visuais, de uns anos para cá, se constituíram num campo muito híbrido. Como é que a escola acompanhou essas mudanças sofridas pelas artes visuais? Como isso se reflete no currículo?

Cláudia -
A gente tem na Escola um núcleo de Arte e Tecnologia. Criado há 10 anos por iniciativa deu m grupo dep rofessores e que permanece até hoje oferecendo cursos ligados à arte digital e à comunicação via internet. Existe uma preocupação, que obviamente não é de todos, atrai alguns professores. Isso nos preocupa muito. De tal modo que, quando fizemos a reorganização dos ateliês de gravura, criamos uma comunicação entre eles e constituiu mais duas salas. Uma de fotografia analógica e uma outra de imagem digital. O cara que vai passar por esses espaços é estimulado a usar das formas mais tradicionais de gravura até as mais atuais, como a reprodução via software de uma imagem digital.

Programação 07 de agosto, sábado



8h30
Café da manhã 
9h 
Mesa: Arte, Invenção e Experiências Formativas Articulando novos possíveis . Participação: Eliana Sousa (Redes de Desenvolvimento da Maré/RJ), Jailson de Sousa (Observatório das Favelas/RJ) e Valdenor Moura (TV Janela/CE). Mediação: Juliana Marinho 
10h30
Intervalo 
11h 
Palestra: Desejar a sensação , Suely Rolnik (SP).

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Desafiando dicotomias e acomodações

RAUL DIZ QUE PROFESSORES SÃO MAIS PROBLEMÁTICOS QUE ALUNOS
FOTO MARINA CAVALCANTE


Por Rafael Rodrigues

A repetição e o mesmo. O conforto e a angústia. O passado e o presente. O real e seus duplos. Parece redutor querer enfileirar as experiências de mundo em pares dicotômicos. Mas, enquanto o professor de Teoria Literária da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Raul Antelo se aventurou por esses opostos, brotou uma leitura complexa, sem concessões, da batalha entre arte e ciência (uma outra dicotomia).

Antelo buscou em Flávio de Carvalho e outros luminares dos anos 30, matrizes capazes de provocar a discussão. Mas soube, como um pêndulo, voltar ao presente - sem esquecer de um passado que é sempre residual, em sua opinião. Costurando idas e vindas no tempo, no espaço e nos fluxos de consciência, ele nos concedeu a entrevista a seguir, em que discute o lócus universitário, entre outros assuntos.

Pergunta - Sobre sua experiência docente na Universidade Federal de Santa Catarina, que caminhos você tem conseguido abrir para evitar que o ensino de Literatura se isole e se repita?

Raul Antelo - Eu separaria em duas áreas os problemas. Há problemas com os colegas e com os alunos. Acho mais problemáticos os colegas que os alunos. Os colegas têm uma prevenção congênita contra tudo o que seja novo. Acham-se muito bem instalados num determinado domínio, não quero novidades, dificilmente ambicionam ler a biblioteca do vizinho, se defendem diante do mundo que muda a uma velocidade superior à possibilidade deles mudarem. Os estudantes muitas vezes são permeáveis a esse tipo de argumento utilizado pelos colegas. E, de início, podem até dizer: "minha formação é outra, o senhor tem um método diferente, não fui educado para isso". Mas a experiência tem me demonstrado que gradativamente essas resistências vão caindo e que, por outro lado, os estudantes não são bobos. Sabem que o mundo tá mudando, que a instituição não os forma competentemente. Tem consciência de onde "roubar". Que se estudarem com o professor que utiliza o mesmo método há décadas não vão poder roubar grande coisa. Nos últimos anos, tenho tido um fenômeno muito curioso, que é acolher alunos que completaram uma formação mais convencional, como em Direito. E constataram que não era isso que queriam, um futuro profissional que fosse apenas uma aplicação mecânica de leis, regras e ditames. E encontram na Teoria Literária uma disponibilidade para pensar o presente que também não encontram na Filosofia. Então, alunos da Filosofia interessados em autores contemporâneos, ou do Direito e outras áreas, tem vindo aos cursos de Teoria Literária a acabam ficando. Tiram passaporte na Teoria Literária e abandonam a área de formação. Em certo sentido é muito bom, pois acabamos tendo um conjunto de estudantes com uma formação heterogênea.

Pergunta - Atravessadas por várias matrizes, digamos assim.

Raul - Várias linhagens, várias tradições, várias línguas. O "antropologuês", o "direitês", o "historiês" (ri). Isso que me interessa. Uma vez perguntaram ao (Jacques) Derrida como ele definiria desconstrução. E ele se saiu com essa: "mais de uma língua". A ideia de você não ser fiel à língua nativa, à língua do lugar... Porque não há naturalidade na linguagem. Está sempre se criando. Como a condição contemporânea é densa, difícil e etc., você tem que ter elasticidade para absorver as outras línguas que muitos colegas não ouvem, não reconhecem linguagens propriamente ditas.

Pergunta - A instituição tem algum peso nesse diálogo com o corpo discente? Tenta impor alguma coisa, ou não?

Raul - A instituição está tão esvaziada... quer impor, mas não consegue. Na minha trajetória, constato que tenho dois tipos de autoridade: a autoridade conferida pelos concursos, etc. Formalmente, sou professor titular, mas isso não me garante liderança entre os alunos. Há outra autorização que passa pela minha capacidade de ler, de elaborar, de produzir discurso, que não me é dada pela instituição, mas pelos alunos. Os alunos percebem quem está elaborando problemas, quem tem a coragem de abordar uma questão sem resposta, e nesse sentido há uma confiança, uma confiabilidade, uma transferência - um conceito psicanalítico. Os alunos conseguem fazer transferência comigo.

Pergunta - Na palestra, você costurou com habilidade uma discussão sobre arte versus ciência. A arte como o in-existente (ou o não pensável). Havia muitas referências dos anos 30 (do século 20). Então, me ocorreu que temos uma discussão desse porte colocada desde os anos 30, e que não se esgotou. Isso não te desanima um pouco? Em 70 anos passados, qual o avanço?

Raul - Não acredito no avanço. Não acredito no avanço. Por sinal, o nome da primeira instituição em que apresentei um trabalho pela primeira vez, em 1973 - e naquela época já me parecia horripilante - é Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência. Nunca acreditei no progresso da ciência, já com 23 anos, em 1973. Nesse sentido, tenho uma compreensão da história muito mais periódica e cíclica. Sou mais nietzscheano ou borgeano, no sentido que a "Biblioteca" é periódica e cíclica... (ri) Acho que o passado não se encerrou. Está sempre passando. E passa por nós, se atualiza, e por ser atual chamamos de presente. E há sempre o resíduo desse passado. Não termina de passar. E como fica, como matéria pendente, alimenta nossas utopias de realizações - que na falta de melhor rótulo, chamamos de futuro. Acho que somos passado, no sentido que somos "passando". O importante é que o tempo passa por nós, porque se isso acontece temos condições de reabrir o jogo constantemente. Se nos defendemos e afirmamos que há um progresso da ciência, o passado já passou, pronto. Não me afeta e não tenho por que saber qual era o debate nos anos 30. Tenho que saber qual era o debate nessa década e nas outras, tenho que saber onde o debate ocorre... Nesse sentido... nada me é alheio. Prefiro pensar o presente como contemporâneo, como "tempo com", com outros tempos. Não é o final da história. É um tempo em que se acumulam outros tempos e que por efeito desse acúmulo, se repete. A repetição nunca é idêntica ao antecedente. E é justamente na diferença que uma repetição estabelece com seu antecedente, que está o x da questão, a meu ver. Aí reside a carga, a força emocional, de sensibilidade, de pathos, de intensidade. É isso que me permite continuar pensando.

Nos bastidores

FOTO O TRUQUE DOS 10s

Todo mundo muito envergonhado e tremendo. A coordenadora do Núcleo de Formação do Dragão do Mar, Andrea Bardawil, acabou de nos apresentar ao público participante do seminário. É que nós ficamos no escurinho, ao lado do palco, no calor de dois refletores.
Nós que estamos "comunicando" o "Arte, Invenção e Experiências Formativas" encaramos o desafio de contar pra vocês os destaques desse seminário que tem sido uma experiência rica para todos nós. Não só como profissionais, mas como "gentes" interessadas e dispostas a colaborar com a formação em arte e cultura no Dragão do Mar.

Poderiamos estar na plateia acompanhando uma coisa ou outra. Poderiamos estar na nossa sala colocando em dia o volume de trabalho que se acumulou ao longo dessa semana. Mas a semana não teria sido tão especial.

O fato é que acreditamos em uma comunicação responsável no sentido de que o que tem acontecido aqui no Teatro Dragão do Mar não pode se perder assim. É preciso compartilhar. E todo mundo tem trabalhado dobrado, saímos daqui exaustos. Mas muito felizes.

E viva a comunicação alternativa.

A equipe:
Dalviane Pires, assessora de Comunicação do IACC, Marina Cavalcante, fotógrafa, Diogo Braga, designer - e artista -, Emanuel Oliveira, webdesigner - e artista, e Rafael Rodrigues, jornalista - quase mestre - que não faz parte oficialmente da equipe, mas que sem ele  nada disso teria sido possível. 
Falta na foto o Yuri Tavares, que foi o braço da comunicação na sala, fazendo cumprir a agenda do dia a dia, na medida do possível.


Essa é Andrea Bardawil: "A gente te pega na saída"

A arte é um risco

FOTO MARINA CAVALCANTE

A palestra "A Formação em Arte: O Artista Investigador e o Fortalecimento do Contexto-Acadêmico: 1970 - 2010", de Ana Maria Tavares, de São Paulo, foi marcada por questionamentos e inquietações. 

E nem poderia ser diferente. "A formação começa com a pergunta 'de quem? para quem?", perguntou.

Para ela, a experiência de arte é sempre uma experiência de risco. Não só para o artista, mas também para o sujeito que tem a experiência com a arte visual. E mais perguntas. "O que? onde? para quem? como?"

Ana Maria entende a arte no estado bruto como uma abstração. "Arte se torna obra quando se torna algo compartilhável. A arte está ligada ao processo de tradução, o que sinto, o que penso. O artista é um investigador, criador. Vai, então, compartilhar isso com o público. E o público é um campo aberto".

Tem arte no Parque

FOTO MARINA CALCAVANTE

A vivência de Cláudia Saldanha na Escola de Artes Visuais do Parque Lage começou ainda na década de 70, como aluna. Onde aprendeu, também ensinou. Foi professora na década de 80 e hoje é responsável pela gestão da Escola que é considerada uma das principais do País. Lugar de formação, mas também de informação. Ponto de encontro de artistas e dos que de alguma forma se identificam com a arte de ver e sentir.

"É curioso ter participado de várias formas e testemunhar o desenvolvimento da Escola", pontua. Mas nem tudo são flores. Cláudia faz questão de dizer que a Escola de Artes Visuais do Parque Lage pertence ao Governo do Estado do Rio e que ao longo dos anos 80 e 90 houve uma certa "privatização" de seus cursos e dinâmica "já que os governos não davam muita bola pra escola". 

Hoje a Escola oferece cerca de 60 cursos e Cláudia atribui aos "professores guerreiros" a permanência da escola em seu lugar de origem, o Parque Lage, pertencente a União, localizado no coração da Zona Sul do Rio. "Imagina o nível de pressão e estresse ao longo dos 35 anos de história para que a escola ficasse onde está", diz Cláudia.

Pelo menos pelos próximos 20 anos, a Escola de Artes Visuais continuará sendo no Parque Lage, graças a permissão do Governo Federal. E pela arte que venham mais 20 e mais 20...


IMAGEM DA EAV PARQUE LAGE

Saiba mais da Escola de Artes Visuais do Parque Lage aqui

A arte como brincadeira

RICARDO ALEIXO DIZ HAVER CONFUSÃO ENTRE MANIFESTAÇÃO E SUPORTE
FOTO MARINA CAVALCANTE

Por Rafael Rodrigues

Todos os caminhos de Ricardo Aleixo confluem para a poesia. Esse é o leitmotiv do seu trabalho, sem que isso signifique o abandono de outras possibilidades criadoras. Tanto assim que hoje ele dá aulas de Design Sonoro numa faculdade em Belo Horizonte. Nessas idas e vindas, Aleixo aprendeu a fazer do poema um território permeável a incursões sonoras e visuais. Assim, para ele, é possível devolver a dimensão do lúdico, da brincadeira propriamente dita, a essa modalidade artística.

Em palestra no Seminário Arte, Invenção e Experiências Formativas, Ricardo Aleixo se embrenhou por essas possibilidades. A este blog, ele falou sobre o assunto e também acerca da rejeição sofrida pela poesia em certos espaços. Confira trechos.

Pergunta - Como é possível reabilitar a dimensão do jogo, não apenas na poesia, mas em outras expressões artísticas?

Ricardo Aleixo - Me parece que tem um dilema, até onde sei, sem solucação aparente, entre o que se espera de transgressão, de deslocamento, de reversão de expectativas, de criação de um horizonte novo, por meio da arte, e o que seria a sua necessária institucionalização. Uma coisa é você pretender o paraíso prometido por essas experiências de autopoiesis que a arte promete. Ela promete isso: ao fazer, você vai se fazer. Como fazer isso funcionar dentro de uma instituição? Isso me parece um dilema de séculos, senão de milênios. E creio que nós não temos a chave para isso. A forma como a arte tem sido levada para o espaço institucional aponta para uma brecha mínima, uma fresta dentro do sistema - existe a possibilidade de incorporar algo que, a princípio, é contra a instituição. Mas isso vai ter que sobreviver dentro da instituição.

Pergunta - Você acha que a academia tem essa maturidade para estimular processos que são...

Ricardo - (Interrompendo) Contra ela? Não tem. Eu falei te cortando porque é exatamente isso, um corte. A arte é um corte em relação aos discursos hegemônicos dentro da academia. Ao cartorialismo, a esse pendor administrativo, às disputas, tudo isso. A arte é, por definição, contra. Ela pode ser usada com esses fins, mas a princípio vai propor uma realidade outra, um estado outro. São as questões imediatas. E a universidade hoje tem se voltado para o imediato, não tem uma visão de futuro. O carreirismo dominou a universidade, pouco importa se na pública ou na privada. Sou contra a universidade? Não, pelo contrário. Mas que hoje ela tem muito menos chances do que nos anos 60, de se colocar criticamente, autocriticamente, e de sair viva disso, isso é fato.

Pergunta - Você falou da questão da inserção da poesia e do (pouco) conhecimento que os alunos de poesia tem de poesia. Você vai aos cursos (superiores em Letras) e os alunos não tem muito contato com poesia.

Ricardo - Nenhuma.

Pergunta - Então a universidade acaba pagando o preço da ausência de introdução à poesia nos outros graus de ensino. Você vê alguma prespectiva ou algum trabalho que possa ser feito no sentido de correr contra esse atraso? Ou a visão da "inutilidade da poesia" é difícil de superar?

Ricardo - A ideia de "inutilidade da poesia" tem que ser entendida de forma contextualizada. Os gregos não pensavam que ela fosse inútil. Eles a usavam, por exemplo, para treinamento rítmico dos músicos, para difusão de questões pedadógicas. A ideia de serventia, no mundo capitalista, é que talvez tenha de ser posta em questão. O valor de uso, de troca, das coisas, essas questões é que tem de ser problematizadas. Em face ao que a poesia traz. Quando a gente fala de poesia, há uma confusão: a gente fala de livro de poesia. É falar do livro como se estivesse falando de poesia. Então se diz assim: "ninguém gosta de poesia", mas o que confere estatuto de verdade a essa afirmação? A suposição de que, de todos os gêneros literários, o que menos vende é a poesia. Mas isso, insisto, é baseado em quê? Você pega as listas da revista Veja. Ninguém se questiona se há um acordo tácito para jamais colocar a poesia, mesmo que ela venda muito, como algo vendável. O que está sendo vendido é o livro de poesia. Assim como música, você não vende. O que vende é CD, entrada para show. As pessoas tem confundido a coisa com o suporte em que ela é vendida. A minha experiência mostra o contrário: as pessoas gostam sim de poesia, isso nunca vai ser massivo, mas a gente tem que considerar o preço dos livros, o desaparelhamento das bibliotecas públicas.

Viajando com Raul Antelo

FOTO MARINA CAVALCANTE

Raul Antelo é profundo. Logo ciência e arte são colocadas na balança. "A ciência é pensamento sobre pensamento. O pensamento científico cria o pensável. Enquanto que a arte cria (...) o in-existente, a realidade do pensamento, a falta de concretude".

Deleuze, Koiev e Einstein. Um grande repertório para o desenvolvimento das ideias.
"O real não é produto do pensamento sobre o pensamento, mas a tentativa de representar a ideia pura."

Pura semiótica: "uma coisa é o registro do imaginário (o cru), outra, o registro do simbólico (da lei) e, outro, do real (que resiste à lei), aquilo que não cessa de se escrever."

Para finalizar a fala, Raul Antelo se utiliza de outro grande artista, Paul Klee, traduzido por Clarice Lispector:  "O artista foi jogado no mundo comum. E sai das situações por seus proprio meios, por isso pode ser mais feliz que o não criador". Para o artista o importante é "nem servir, nem dominar, somente transmitir."

P.S Só lembrando que o Museu de Arte Contemporânea tem obra de Paul Klee na exposição De Picasso a Gary Hill. Acesso livre

"Não acredito em poetas prontos"

FOTO MARINA CAVALCANTE

O poeta mineiro Ricardo Aleixo começou a palestra reconhecendo o papel do Ceará e de seu charque para a "construção" de Minas Gerais. O discurso nem é comum. "Eu que quase nunca visto a 'capa da mineiridade' me sinto especialmente contente em estar no lugar que ajudou a criar o lugar em que nasci. O charque do Ceará serviu para alimentar o processo civilizatório de Minas Gerais".

Mas não era de carne e nem de processo civilizatório que o poeta queria falar. Ele queria falar de poesia. Da poesia que nem sempre está presente nas salas de aulas. "Quando foi que você leu um livro inteiro de poesia inteiro?", questionou em sua leitura. Ele estava falando de poemas por prazer e não por dever de ofício. "É esse poema que você leva pra sala de aula ou escolhe outro? Você lê poesia por prazer?".
É que Aleixo sabe que um poema lido e apreciado na tranquilidade do lar pode encher de3 tédio um aluno em sala de aula.

"Tenho uma decepção grande com o modo que a poesia vem sendo tratada no meio acadêmico. Em Minas só na pós para se ter um contato mais direto com a poesia contemporânea brasileira. Quando tenho contato com as turmas - a convite dos professores recém formados - vejo a carência deles". 

Aleixo não esqueceu os que resistem. "Mas existem os focos de resistência. Tem os que não querem saber o que vão ganhar ao manipular um poema e vão abarcando outras possibilidades".

Aleixo finalizou dizendo que não acredita em poetas prontos. Disse ainda estar em formação. "Formação não é algo dado. É processo".

Programação: 06 de agosto, sexta-feira

8h30 
Café da manhã 
9h 
Palestra: O que não se ensina, mas se aprende: sobre a formação dos poetas , Ricardo Aleixo (MG) 
9h30
Palestra: A arte in-existente ou a estrutura pós-funcionalista da experiência , Raul Antelo (SC) 
10h
Intervalo 
10h15
Mesa: Literatura, Invenção e Experiências Formativas contextos e singularidades. Participação: Ricardo Aleixo (MG), Raul Antelo (SC), Fernanda Coutinho (CE), Sarah Diva (CE). Mediação: Carlos Augusto Lima 
12h
Almoço 
14h
Palestra: A Experiência da Escola de Artes Visuais do Parque Lage , Cláudia Saldanha (RJ) 
15h 
Palestra: A Formação em Arte: O Artista Investigador e o Fortalecimento do Contexto-Acadêmico: 1970 - 2010 , Ana Maria Tavares (SP) 
15h40
Intervalo 
16h
Mesa: Artes Visuais, Invenção e Experiências Formativas contextos e singularidades. Participação: Cláudia Saldanha (RJ), Ana Maria Tavares (SP), Carlos Velazquéz (CE), Gilberto Machado (CE) . Mediação: Enrico Rocha 
17h30 
Lanche 
Lançamento dos livros Modelos Vivos de Ricardo Aleixo, Maria com Marcel. Duchamp nos trópicos , de Raul Antelo e O Devir-Criança do pensamento , organizado por Daniel Lins. 
18h
Aula espetáculo Na roda do mundo , de Helder Vasconcelos. 

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Os limites de um modelo



ZÉ FERNANDO AZEVEDO: "O MESMO TEATRO QUE SE INTERROGA PELO SENTIDO DO ESTADO PRECISA DELE"
FOTO MARINA CAVALCANTE

Por Rafael Rodrigues

José Fernando Azevedo subiu ao palco do teatro do Centro Cultural Dragão do Mar achando que falaria do teatro brechtiano. Mandou o protocolo às favas e desenvolveu uma aguda reflexão sobre os limites do modelo de teatro de grupo, a partir das discussões anteriores do Seminário Arte, Invenção e Experiências Formativas. Com um tantinho de mea culpa, talvez reflexo da lucidez com que trata do tema, o dramaturgo, diretor e professor da Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo disse enxergar um ponto de "limite" na prática desses grupos teatrais, que tem a ver com o momento do país e também com o modelo de fomento por eles adotado.

Cinco grandes questões balizaram a fala do estudioso. A saber: qual a relação entre o teatro que se vê e o desejo de fazer teatro? Qual a relação entre o teatro feito e o teatro ensinado? O que uma escola de teatro deve ensinar? De que teatralidades estamos falando? Como "cavar" experiências no teatro?


Assim, com mais perguntas que respostas, Fernando ousou propor a revisão daquilo em que ele mesmo está inserido. Após a palestra, ele conversou com o blog. Veja alguns trechos.


Pergunta - Você tratou na sua palestra de cinco grandes questões, relativas tanto ao teatro que se faz quanto à prática docente na graduação em teatro. Ao buscar respostas a essas questões, como isso interfere na sua prática docente e no seu fazer teatral, já que você é dramaturgo e tem uma companhia de teatro?

José Fernando Azevedo - Acho que a grande questão é conseguir mostrar, no processo formativo, que o teatro é uma relação de fazer, e que esse fazer tem uma inscrição histórica, se dá na história. Ele não é só processo, no sentido do que dá origem a um espetáculo. Ele está inscrito num processo que é maior que ele, e a cada momento dessa história o teatro responde de uma forma diferente às perguntas que a experiência coloca. Acho que conseguir mostrar isso, numa aula que seja, abre a porta para a experiência efetiva, a experiência da cidade. E acho que fazer teatro, seja na minha experiência como dramaturgo ou diretor, a questão é precisamente essa: tentar estar aberto e ser capaz de olhar a cada momento para as perguntas que a experiência impõe e conseguir devolver perguntas a essa experiência. Complexificar esse processo.


Pergunta -
O modelo de teatro de grupo se esgota na hora de dar conta dessa complexidade de que você fala? De apreender essas grandes questões que surgem e devolvê-las? Há um entrave aí?

Fernando - Eu não usaria essa expressão "se esgota". Eu continuo fazendo teatro a partir da experiência do grupo. Talvez não exista outro modelo. Talvez a experiência do grupo se renove e novas formas de agrupamento talvez apareçam. O que eu acho é que o modelo que nós seguimos, de organização do grupo, que tem a ver com a manutenção, continuidade, esse modelo que devolve o grupo de uma maneira bastante restrita à política - porque política se torna conseguir financiamento, se manter, produzir editais - este modelo tem revelado limites. E nós não conseguimos outras formas de vinculação com a cidade, com a sociedade, para além desses modelos. Tenho a impressão de que a gente vive um momento - e é isso que eu chamo de limite - que exige pensar outras formas de vinculação com a cidade, com o público, e portanto outras formas de manutenção. A questão econômica se impõe. Agora, este teatro de grupo, que ao discutir a sua condição, se interroga pelo sentido do Estado, é também um teatro que, a cada quatro anos tem que adequar aquilo que imagina que deva ser o Estado a um programa provisório ou efetivo de governo. Essa adequação é que nos impõe limites.


Pergunta -
E ela (essa adequação) é paradoxal.

Fernando -
Ela é mais do paradoxal, ela é interna àquilo que a gente faz. Ela se revela naquilo que a gente faz. É constituinte. Então a gente precisa reconhecer essa contradição, que nos faz existir, porque precisamos dessas alternativas, mas ao mesmo tempo reconhecê-la significa também se perguntar o que isso nos permite imaginar para além do que está aí. Acho que a gente vive um momento em que é difícil imaginar para além do que a gente vê. E isso é um problema.


Pergunta - Você acha que o público consegue vislumbrar essa discussão, ou fica indiferente a isso?

Fernando -
Acho que o público não é uma abstração. O teatro de grupo, e esses grupos, eles se formam na medida em que formam um público. Portanto, é quase uma relação de vinculação. Às vezes, o público de um grupo de teatro é quase uma torcida de futebol. (ri) Essa dimensão do público pressupõe a capacidade que esse público tem de se vincular com uma parte da cidade. Nesse sentido, acho que este público está em relação com as discussões que esses grupos são capazes de fazer. em algum lugar, o estágio de recepção denuncia o estado de produção. Essas coisas estão juntas, não são separadas.

"É resistência e utopia"




FOTO MARINA CAVALCANTE


Tarde do teatro, no seminário "Arte, Invenção e Experiências Formativas". A primeira palestra, "Teatro de Grupo: Locus de Utopia e Resistência", da carioca Christina Streva, falou da relação arte-academia. Como foi e como tem sido."Professores e pequisadores, por terem optado pela academia, eram vistos como artistas frustrados para garantia da estabilidade. Artes cênicas com mestrados e doutorados, novos cursos pelo Brasil, é uma multiplicação de oportunidades de egressos", destaca Christina.

A pesquisadora diz ainda que graças a renovação das instituições, jovens artistas estão nos institutos e universidades, muitos sem estarem dispostos a abdicar da carreira artística. "Até pouco tempo, um professor-diretor que ensaiava até cinco horas por dia não tinha como colocar isso na vida acadêmica", pontua. Muita coisa mudou. Foi preciso mudar para fazer valer o trabalho dentro das instituições. Era preciso repensar as rígidas regras acadêmicas para atender a necessidades da carreira artística. "O buraco era mais embaixo e cabia a nós criar processos formativos menos rígidos. Rever o antigo conceito do professor que traz para a sala de aula uma verdade absoluta. Uma busca constante por caminhos alternativos", disse complementando que "se não existem fórmulas feitas para as salas de aula, devemos focar em vetores norteadores na construção de processos pedagógicos".

Aplaudida, finalizou sua fala emocionada com o coletivo de teatro que surgiu no sertão mineiro, o SerTão Teatro. "É resistência e utopia".

Leia mais do SerTão Teatro aqui

A tarde seguiu com a palestra "Ainda sobre a proposição de um instituto sem espectadores teatralidade e experiência na sociedade do espetáculo, de José Fernando Azevedo, de São Paulo. 

Troca e parceria na boca de cena

CHRISTINA DEMONSTRA OTIMISMO COM CENA UNIVERSITÁRIA
FOTO MARINA CAVALCANTE

Por Rafael Rodrigues

Demorou, mas eis que as universidades abriram a cortina da relação com os agentes artísticos e culturais. A política vem para ficar na forma de cursos superiores em artes cênicas e dança, por exemplo - a Universidade Federal do Ceará acaba de abrir os seus. Nesse diálogo, uma cena "singular, histórica, importante" se constitui, sinaliza a diretora, professora universitária e pesquisadora de teatro Christina Streva.

A vivência de Christina em três graduações públicas na área teatral - nas federais de Minas Gerais, Paraíba e agora no Rio de Janeiro - lhe permite avaliar a relação entre os cursos universitários e a ação de grupos de teatro. "Os jovens docentes estão trazendo, por meio da atividade artística, uma oxigenação sem precedentes para a academia", opina.

Foi justamente sobre o teatro de grupos, na perspectiva aberta pelas graduações, que a pesquisadora discorreu no Seminário Arte, Invenção e Experiências Formativas, nesta quinta-feira (5). Antes da palestra, ela concedeu entrevista ao blog. Confira trechos.

Pergunta - Na relação entre a academia e o fazer teatral por meio dos grupos, há uma efervescência?

Christina Streva - Com certeza. Acho que o momento é singular, histórico, importante. Acho que, por muitos anos, a academia se fechou dentro dos seus muros, se isolou, não se abriu para o diálogo com os agentes artísticos e culturais da comunidade. Acho que essa nova leva de profissionais, que estão entrando com todo o gás, esses jovens docentes, talvez, pela primeira vez na história do nosso país, estejam trazendo uma oxigenação para a academia, através principalmente das suas atividades artísticas, não abrindo mão de suas vidas artísticas em prol de uma vida acadêmica. Estamos num momento singular, onde essa dicotomia entre a academia e o artista está se dissolvendo pela primeira vez. Acho que os grupos são uma resposta para auxiliar nesse processo.

Pergunta - Você consegue enxergar um salto qualitativo no teatro que se tem feito, um teatro com mais densidade ou que proponha discussões mais interessantes?

Christina - Eu sou uma grande otimista, e acho que o momento não poderia ser mais favorável. Eu tive o privilégio de acompanhar mudanças muito grandes no Estado da Paraíba. Eu sei o que era a realidade da Paraíba há quatro anos atrás e o que ela é hoje. É inquestionável o avanço, é inquestionável tanto a quantidade quanto a qualidade das produções do teatro, da prática teatral na Paraíba hoje. E isso foi resultado da união da academia, que criou um curso de teatro - um bacharelado em interpretação e uma licenciatura em teatro - e a parceira com os grupos que se formaram nesse entorno, nesse processo.

Pergunta - Você passou por universidades públicas como a UFPB, a UFMG e agora está na Unirio. Em que condições esse trabalho é desenvolvido nas universidades públicas? São comuns queixas sobre falta de verbas. São condições estáveis, boas?

Christina - Estáveis não. Acho que obviamente existe muito a ser feito. Existem problemas em todos os lugares, tanto nos grandes centros quanto nas cidades que estão recebendo pela primeira vez esses cursos. Os desafios são enormes. A gente vem de um histórico de mais de uma década de degradação, de destruição do sistema público federal. Então, o que eu vejo é um grande avanço nestes últimos anos. É quase uma revolução silenciosa, porém demorada, como qualquer processo educacional ou artístico. Estamos no caminho, mas longe da perfeição, do que precisamos.

A docência em movimento


LÚCIA É PROFESSORA DESDE OS 17 ANOS
FOTO MARINA CAVALCANTE

Por Rafael Rodrigues

Pegue modelos seculares, vire-os pelo avesso e neles aplique propostas pedagógicas atuais, um professor disposto a arriscar e alunos idem. Essa espécie de receita poderia sintetizar uma das formas possível de se encarar o ensino de dança numa perspectiva contemporânea. Não é receita porque, como bem lembra a professora Lúcia Matos, da Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia, não há modelos prontos e o professor também é depositário de inquietações, saberes prontos a serem desconstruídos e devorados por alunos.

Partidária dessa visão flexível do processo de ensino-aprendizagem, Lúcia falou à plateia do Seminário, Arte, Invenção e Experiências Formativas nesta quinta-feira (5). Depois de entrar em cena, ela conversou com nosso blog sobre a delicada arte de descosturar certezas. Confira trechos.



Pergunta - Você se coloca, em sala de aula, como um sujeito de incertezas, que não tem todas as respostas prontas. Você encontra muito o aluno que espera por certezas? Como você confronta essa situação?

Lúcia Matos - Na prática de sala de aula, eu procuro usar diferentes estratégias. Lógico que existem alunos... Pela reforma curricular que aconteceu na Escola de Dança (da UFBA), em que trabalhamos com muitos autores contemporâneos, que falam da não-fragmentação do conhecimento, que tratam de teorias das neurociências, o corpo como pensamento da dança, todas as essas influências fazem com que os alunos rejeitem, muitas vezes, uma aula expositiva. Tento mostrar para o aluno que a gente pode abarcar diferentes tipos de propostas de aula em que a gente pode ter uma maior diversidade. Existe um documento da Unesco, chamado Road Map, que trata do ensino das artes nas escolas e a formação em geral. A Unesco, nesse documento, começa a tentar a forçar os governos, os países, a terem políticas mais claras para a arte-educação. Então é um conhecimento que eu detenho naquele momento e apresento para eles, mas é um espaço onde eu possibilito que eles leiam o documento, não apenas numa maneira em que eu exponho e eles "engulam". Tenho muitos conhecimentos, mas também incertezas, e mostro isso a eles. Mostro também a transformação de algumas certezas que eu tinha.

FOTO MARINA CAVALCANTE


Pergunta - Você falou em sua palestra sobre reprodução de modelos, sobre como reconhecer essa reprodução. O que você acha que ocasiona essa forma de olhar para a dança, em que modelos são reproduzidos?


Lúcia - Na realidade, no processo de ensino, há muitos alunos que são mais "artistas" e vão buscar no ensino uma forma de subsistência. No olhar deles, eles vão lá (nas salas de aula) apenas "ensinar" a dança, depois vão pra casa e vão pensar em sua criação artística. Esquecem que, naquele fazer dele, estão colocando uma visão de corpo e de dança que vai refletir diretamente naqueles alunos, naquelas pessoas envolvidas com o fazer dele. Logicamente, falando de métodos mais tradicionais, a dança sempre foi vista como cópia e reprodução de movimento. Eu mostro meu movimento, você copia, eu te conserto, como se isso fosse algo suficiente. Não quer dizer que a relação de cópia tem que cair por terra, pode ser usada, mas não é o único meio de se pensar na dança. Essas diferentes estratégias precisam ser pensadas, para que eu (professor) não seja o único modelo de referência, pra que o aluno copie. Essa relação de modelo e repetição está muito ligada a modelos sedimentados como o balé clássico, onde você tem os níveis de aula. Há professores que descontroem isso com o próprio balé. Então é possível desconstruir esse modelo e trazer novas propostas.

"Mas isso é dança?"


BEATRIZ CERBINO: FOCO NA PRODUÇÃO E NA RECEPÇÃO
 FOTO MARINA CAVALCANTE

Por Rafael Rodrigues

Com voz plácida, a professora do curso de Produção Cultural da Universidade Federal Fluminense (UFF) Beatriz Cerbino se posiciona diante de uma daquelas questões aparentemente insolúveis: o que é arte e o que não é? Sem espanto, defende não ser possível dizer isso apenas na esfera da produção. Os olhares de quem se apropria de uma manifestação qualquer são decisivos em busca da resposta. E o desafio, aí, se torna a educação do olhar.

Como docente dos módulos de dança na graduação da UFF, Beatriz se depara com certa frequência com esse tipo de questionamento. Mas não se abate diante deles. Prefere convidar os alunos - e quem mais aparecer - para discutirem e construírem saberes. Nesse processo, a dança se transmuta em muito mais do que um par de sapatilhas de ponta.

Neste bate-papo, após a palestra no Seminário Arte, Invenção e Experiências Formativas, Beatriz conta como lida com as pré-concepções que envolvem o aprendizado em dança. Confira trechos.


Pergunta - Você falou na palestra sobre uma mudança de paradigma que está sendo incorporada às práticas docentes: o corpo como suporte de grandes (e pequenas) questões). Isso já atingiu, de forma mais ampla, o circuito da dança? Os alunos, outros professores? Ou ainda existe a visão de que a dança é algo que pode ser catalogado num primeiro olhar?

Beatriz Cerbino - Na verdade, é um processo, que vem acontecendo ao longo do tempo até pelo próprio olhar que vem sendo construído. É uma construção de quem olha e de quem elabora esses textos visuais. Acho que é muito uma ideia de disponibilizar, ou de estar disponível, melhor falando. Seja para produzir essas obras em que não há uma receita - nada contra, não estou dizendo que é bom ou ruim - mas que apresentem outras formas de organização do corpo. E principalmente (a disponibilidade) de quem olha. Esse é um grande papel do educador de dança hoje: mostrar para as pessoas e para ele também que estar disponível é estar aberto a outros tipos de informação. E entender que a dança não é no singular, mas no plural. Não sei se estou respondendo quando você fala de mudança de paradigma, mas acho que é uma mudança em relação à própria arte. Essa questão de "isso não é dança?" também se aplica à arte, quando a gente fala de arte contemporânea.



Pergunta - Há ainda um certo abismo? Por que os alunos chegam com pré-concepções, do tipo "isso é ou não teatro" e assim por diante. E o que "não é" me é alheio, eu não quero.

Beatriz - É o que não está nem em uma área, nem em outra, fica transitando. É muito mais fácil dizer o que "não é".

FOTO MARINA CAVALCANTE


Pergunta - Como é que vocês lidam com esses conflitos?

Beatriz - Certamente não é fácil mostrar que as coisas não tem que ser só de um jeito. Ou não trabalhar apenas com preconceitos, com ideias preestabelecidas. É exatamente o lugar, como a Lúcia (Matos, professora da Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia) de instabilidade o tempo todo. Mas é também - e aí eu falo do lugar do docente - possibilitar a construção de outras identidades para a dança. Isso é que é o grande barato. A dança não tem só uma identidade, tem várias identidades. E quanto mais isso isso vai ficando claro, mais essa necessidade de denominar, de definir, vai se estreitando. Quando você pensa em "definir", é dar fim à alguma coisa. E quando você define dança, em tese você dá fim àquela produção. E isso para a dança é terrível. Quanto mais indefinida ela ficar, maior será sua riqueza. E não penso só em dança contemporânea, mas em todos os tipos de dança. Quando a gente olha hoje o trabalho de Lia Rodrigues, Bruno Beltrão, aqui no Brasil, é muito saudável. No momento em que a gente parar de olhar para essas questões, vamos chegar num lugar de conformidade que, para a arte, acho que é... terrível!